Prazer, Veronica

Hoje venho aqui com muita coragem contar um pouco sobre um capítulo da minha vida que poucas pessoas conhecem, que poucas vezes mencionei em conversas e que sempre fiz questão de esconder.

Desde que era muito pequena eu tinha um sonho: ser atriz. Deslumbrada com Chiquititas e todas as outras novelas infantis que passavam no SBT esse sonho só crescia. Claro que com 6 anos de idade eu não tinha a menor ideia de como conseguir alcançar esse sonho, então o guardei dentro do peito na espera de que quando eu fosse maior conseguisse encontrar um jeito de conseguir o que eu queria.

Os anos foram passando e eu fui crescendo. Estudava em uma escola onde muitas pessoas eram muito cruéis. Sempre que tinha briga no grupinho de amigas, a culpa sempre caía toda em cima de mim e sempre era eu a culpada e isolada por todas as outras amiguinhas.

Tenho uma lembrança muito clara de quando tinha 8 anos de idade, que em uma dessas desavenças de criança, eu tive que passar vários recreios sozinha e ainda ter que aturar as outras falando de mim e rindo na minha cara. Lembro da sensação de vazio, impotência e vergonha por estar passando por aquilo como se tivesse as vivido ontem.

As vezes parece bobo falar que uma situação como essa tenha ficado tão marcada na minha memória mas só quem teve que aturar pessoas olhando pra você e rindo sem fazer questão nenhuma de esconder que estava rindo e falando de você, vai entender a humilhação que eu passei.

Toda essa experiência me fez acreditar que eu não podia ser eu mesma, e tinha que fazer de tudo para agradar os outros para não ser excluída. Me lembro que quando finalmente consegui fazer as pazes com as amiguinhas comecei a medir minhas palavras. Pensava bem no que ia dizer. Comecei a me moderar muito com medo de ser excluída de novo. Hoje em dia me surpreendo ao lembrar dessas coisas. Como uma criança pode ter começado a se podar tão cedo?

IMG_1244

Ao longo dos anos sempre fui considerada uma das meninas mais feias da classe. Me davam apelidos, como por exemplo, de “Pão de Queijo” pra indicar que eu era gorda de mais. E eu sempre acreditei que eu era mesmo. Os meninos falavam que eu era um pão de queijo na escola, e em casa o bullying com o meu peso continuava. Não preciso nem falar que cresci com problemas de autoestima né?

O fato de me sentir gorda e portanto, feia, sempre fez com que eu me sentisse muito inferior às outras pessoas. Quando eu gostava de um menino na escola, fazia de tudo para esconder ao máximo. Só de pensar que o menino que eu gostava pudesse ficar sabendo, era a morte. Tudo porque eu sempre soube que ele nunca ia olhar pra mim por eu ser gorda e feia. Acho que por isso nunca tive nenhum namoradinho na escola.

Apesar de sempre ter sofrido um bullying de leve e ser meio que a excluída da classe, 2005 foi meu ano do terror. Eu tinha 13 anos e estava na 7a série. Dois indivíduos começaram a pegar muito no meu pé em um trabalho de grupo.

Eu e minha melhor amiga sempre fazíamos trabalho juntas mas quando tínhamos que fazer grupos de 5 ou 6 pessoas, claro que éramos nós as que sobravam. Eu nunca contei pra ninguém, nem pra minha amiga, mas o fato de sempre sobrar nos trabalhos em grupo me machucavam muito. Mais uma vez, me sentia inferior aos outros e extremamente malquista pelos colegas de sala.

No primeiro trabalho em grupo com mais de 6 pessoas que tivemos que fazer no ano começou nossa sina. Dois dos meninos que fizeram grupo com a gente fizeram da nossa vida um terror. Nos chamavam de lésbicas, feias, horrorosas, chatas e um deles me chamava de burra e dizia que minha opinião não importava nem pra uma pulga toda vez que eu tentava dar uma opinião sobre trabalho.

O bullying foi tão pesado que no recreio eu corria pra me esconder embaixo da escada pra não ter que ser vista por eles, ou pra não cruzar com eles no pátio (mas eu queria mesmo era me esconder da sala toda, porque no fundo eu sabia que todo mundo me zoava pelas costas. Mesmo as pessoas que se faziam de boazinhas na minha frente).

Sabe aquela sensação de entrar em uma sala e as pessoas olharem pra você com deboche e desprezo? Eu sei. Ahhh… como eu sei!

Nesse período começou a se intensificar de uma forma astronômica meu transtorno alimentar e distúrbio de imagem. De uma forma bem superficial explico a causa do transtorno: a rebeldia a comentários de família e aos comentários por eu ser feia na escola e eu comecei a desenvolver compulsão alimentar.

Comecei a comer descontroladamente, e ter crises de culpa logo após a comilança. A dor da culpa era de me cortar o peito e com o passar dos meses, comecei a não me reconhecer no espelho e a odiar o que via (porque na minha cabeça aquela imagem de uma menina “extremamente” gorda não me pertencia).

Não sabendo lidar com o ganho de peso, bullying terrorista na escola, e comentários extremamente maldosos dentro de casa eu comecei a ficar agressiva. Comecei a adotar uma atitude de “eu não me importo com o que os outros pensam” ou “eu não tenho que ser bonita pra agradar ninguém” e comecei a propositalmente me enfeiar. Andar com roupas desleixadas, com cabelo mal arrumado, e roía as unhas até os dedos ficarem em carne viva. Claro que com a minha rebeldia eu só queria provar para o mundo que todos os comentários ofensivos, toda a dor que me era causada, me eram indiferente porque eu não me importava, sendo que no fundo mesmo me importava com cada palavra.

Apesar da minha atitude rebelde, eu estava sofrendo muito por dentro. Dava de durona por fora mas por dentro eu queria morrer. Sofria de um disturbio alimentar e eu não sabia (eu mesma me culpava por estar engordando porque achava que não me controlava porque eu não queria, ou porque não tinha força de vontade), me enfeiava pra tentar “desaparecer” e não chamar a atenção dos terroristas quando na verdade por dentro eu amava moda, maquiagem, e queria estar nos padrões de beleza pra conseguir seguir a carreira de atriz e pasmem… ser modelo.

Ai comecou uma dualidade muito grande na minha vida: o sonho da minha vida era fazer novelas e filmes, estar nos holofortes mas ao mesmo tempo queria sumir e passar desapercebida com medo do terror que as pessoas poderiam fazer comigo se me vissem. Claro que me achava feia de mais pra conseguir fazer uma novela, e me achava tão nojenta que pensava não ter o direito de usar calça jeans (porque na minha cabeça só pessoas magras podiam usar jeans. Oi?!?!?!?!?!).

Um tempinho depois, acredito que no ano seguinte, descobri o que eram os transtornos alimentares: Bulimia e Anorexia através de uma novela. Ao invés de levar a mensagem como um alerta e tomar cuidado para não ter nenhum desses transtonos eu achei na bulimia o alívio de culpa. Descobri que se eu vomitasse me sentiria muito menos culpada por ter compulsão alimentar (que na época eu ainda não sabia que era um problema psicológico).

Morria de inveja das meninas que tinham anorexia e apesar de me envergonhar em dizer isso agora, quando era adolescente meu objetivo de vida era ter anorexia. Achava que se tivesse a doença eu iria emagrecer e assim ser mais feliz com meu corpo e que todos os meus problemas iam desaparecer. Não preciso nem dizer que não deu certo tentar lutar contra um distúbio alimentar (compulsão) com outro distúrbio alimentar completamente oposto (anorexia).

Por muito tempo acreditei que eu era burra e feia e que todos os problemas da minha vida eram culpa minha porque eu escolhia comer que nem uma louca. Passei minha adolescência inteira usando somente camiseta, tênis e calça jeans (depois de alguns anos entendi que eu poderia me esconder no jeans também) e não ousando e usando as roupas que sempre tive vontade de usar porque tinha que me esconder e porque não era bonita como as outras meninas, atrizes e modelos então eu não podia usar aquelas roupas somente pelo fato de não ser digna delas. Outro motivo também pra não me vestir como uma fashionista, como sempre sonhei em ser, era o medo de chamar a atenção e ser zoada, rirem de mim ou me chamarem de ridícula.

Tênis, jeans e camiseta foram, e acho que ainda são, minha armadura… ou melhor… minha máscara. Por trás dessas roupas e de um rosto sem maquiagem se esconde uma pessoa que tem medo de ser ela mesma. De se expor e se mostrar para o mundo.

Essas crenças e traumas me acompanharam até eu ter uns 23 anos mais ou menos quando eu finalmente entendi que não precisava carregar isso sozinha e que poderia me libertar dos meus medos e deixar para trás tudo o que me fez mal pra conseguir viver a vida que eu sempre sonhei pra mim. Comecei a fazer terapia e graças a ela consigo estar aqui hoje. Expondo tanto da minha vida, detalhes tão íntimos para que meus amigos me conheçam um pouco melhor e pra que quem sofre dos mesmos problemas que eu souberem que não estão sozinhos.

Ainda não posso dizer que tive um final feliz e consegui me libertar de todos esses traumas mas estou a caminho. Claro que muitas outras coisas aconteceram de 2005/2006 pra cá, mas essas outras histórias vou deixar pra outros posts.

IMG_1102

Se você já passou ou está passando por algo parecido, me conte nos comentários. Vamos ajudar umas as outras a conseguir superar traumas e levantar nossas autoestimas. Eu acredito piamente que uma tem o poder de ajudar a outra a se levantar e eu espero que esse post tenha te ajudado tanto quanto ajudou a mim a finalmente ter coragem de expor esse momento da minha vida de que tanto me envergonhava.

 

 

Anúncios

Como é um flat em Estocolmo?

No último dia em Estocolmo não fizemos muita coisa por conta da minha gripe. Mas como eu havia prometido no primeiro dia fiz o tour do flat onde ficamos hospedadas na cidade. Não reparem a bagunça, afinal era nosso último dia. Espero que gostem 😃

Ano Novo na Suécia

Véspera que ano novo. Um momento para relaxar na praia, comprar aquele vestido branco larguinho e fresquinho que vai combinar com aquele par de havaianas enfeitados com miçanga maravilhoso pra usar na praia pra ver a queima de fogos, não é mesmo? Pois é, meu ano novo foi o oposto disso. Estávamos na Suécia, com um frio de cortar, choveu na virada e ainda por cima, não conseguimos encontrar o lugar pra ver a queima de fogos. “Seu ano novo deve ter sido muito ruim”, você deve estar se perguntando. E eu digo que foi um dos melhores da minha vida. Um sonho que se tornou realidade.